Empreender fora do país é muito mais do que abrir um negócio em outro endereço.
É mergulhar em uma nova cultura, reaprender a se comunicar, entender outros ritmos e, principalmente, descobrir que o que funciona em um lugar nem sempre faz sentido em outro. Quando cheguei à Irlanda, eu não tinha essa clareza.
Achava que bastava trabalhar duro e aplicar o que já sabia. Com o tempo, percebi que o maior desafio não era dominar o idioma — era aprender a enxergar o mundo com outros olhos.
A primeira grande lição foi sobre humildade. No Brasil, eu trabalhava na área contábil, tinha estabilidade e um caminho traçado.
Ao chegar em Dublin, comecei do zero — literalmente. Trabalhei como garçom, reaprendi a me expressar, enfrentei olhares de estranhamento e precisei provar meu valor em um ambiente onde ninguém me conhecia.
Essa experiência me ensinou que, em qualquer cultura, o respeito é conquistado muito mais pelas atitudes do que pelas palavras.
A humildade abriu portas que o currículo jamais abriria.
Outra lição foi sobre tempo e paciência. O ritmo irlandês é diferente. As coisas acontecem de forma mais calma, sem o imediatismo que a gente carrega no Brasil.
No começo, isso me frustrava.
Eu queria resolver tudo rápido, ver resultados logo. Mas aprendi que essa serenidade tem um propósito: ela sustenta decisões mais conscientes e relacionamentos mais sólidos.
A Irlanda me ensinou que crescer devagar não é o mesmo que andar para trás — é apenas construir com mais profundidade.
Também aprendi o valor da confiança e da previsibilidade. Na cultura irlandesa, promessas têm peso, e a palavra dada é levada a sério.
O “sim” só vem quando há certeza, e o “não” é dito com honestidade — algo que, no início, parecia rude, mas depois entendi como sinal de respeito.
Esse senso de transparência me inspirou a repensar a forma de liderar e fazer negócios. Aprendi a valorizar acordos claros, metas realistas e uma comunicação direta, sem rodeios.
Mas talvez a lição mais importante tenha sido sobre comunidade.
A Irlanda é um país que acolhe, que se importa com o outro. Essa mentalidade me fez compreender o verdadeiro sentido de empreender: criar algo que tenha impacto real na vida das pessoas.
Foi isso que me levou a fundar a SEDA — não apenas como uma escola, mas como um espaço de acolhimento, aprendizado e pertencimento para quem, assim como eu, veio recomeçar longe de casa.
Empreender na Irlanda me transformou mais como pessoa do que como empresário.
Me ensinou que o sucesso não depende apenas de estratégias, mas da capacidade de se adaptar, respeitar e aprender com as diferenças.
Hoje, entendo que cada cultura tem algo a nos ensinar — e que o crescimento verdadeiro acontece quando deixamos o mundo nos mudar, sem perder quem somos.




